15h39 - quinta, 10/01/2019

Lavrar o Mar


Napoleão Mira
Gosto de circo e da vida cigana que levam os que a vivem. Admiro-lhes a destreza e perigosidade dos números quando estão na pista ou no trapézio, na mesma proporção com que lhes invejo a liberdade, essa conjugação do verbo "partir para de novo chegar e mais tarde abalar" de que é feita a vida dos que abraçam esta antiquíssima arte.
Antes do 2018 se finar decidi ir ao circo. Os amigos com quem partilhei a experiência já eram habitués na matéria e foi por insistência deles que acordei a criança adormecida que em mim reside e parti à descoberta desta nova maneira de a reviver.
Estava uma noite gelada em Monchique, mas dentro do chapitô, onde 700 almas esperavam pela estreia desta trupe de ginastas, acrobatas e malabaristas, respirava-se uma atmosfera surpreendentemente agradável, tanto pelo calor humano como pela climatização do espaço.
Logo que o espetáculo começou, dei por mim a pensar que iria assistir a algo verdadeiro e surpreendente. A dupla franco-finlandesa Victor & Kati eram os protagonistas daquela estranha performance. Ele um homenzarrão multifacetado, ela uma acrobata frágil e temerária deliciavam a assistência com arrojados números de acrobacia e equilibrismo raros de ver, ao mesmo tempo que, numa cacofonia debitada em várias línguas, Victor, qual maestro regente, empolgava a assistência levando-a a esquecer-se de si durante naquela hora e meia e, num passe de mágica, passar a residir no planeta circo de que esta brava trupe era representante maior.
Os restantes acrobatas, de quem não consegui captar os nomes, eram também eles exímios profissionais, tanto nos números em altura, como na barra oscilante ou na performance a cavalo, onde, estes dois que a terra há de comer viram um homem a fazer o pino em cima de um quadrúpede a galope.
O ritmo do espetáculo era verdadeiramente estonteante. Não eram permitidos tempos mortos e, em muitos dos números, sem que tivessem qualquer relação (ou se calhar tinham!) aconteciam várias coisas ao mesmo tempo. Recordo, por exemplo, que o portal de entrada e saída dos artistas estava montada em cima de um charriot que de vez em quando circulava pelo palanque que divide a assistência da pista, com os mais diversos quadros, numa demonstração de cuidado cénico, de novidade plástica e de diversidade cultural.
A acompanhar este terramoto de emoções estava – montada lá no alto – uma banda de músicos extraordinários que emprestavam o colorido sonoro necessário a cada momento e no segundo preciso.
Sei que durante as cinco noites de apresentação a lotação esteve permanentemente esgotada, tal quer dizer que existe futuro para o circo, só há que ser inventivo. E numa vila do interior algarvio, levar a cabo uma empreitada desta natureza requer mais do que uma ponta de loucura. Requer visão estratégica e capacidade de desenvolvimento recorrendo às agências de desenvolvimento local, bem como ao apoio do programa "365".
Dizem-me que a brilhante organização se deve à dupla Giacomo Scalisi e Madalena Victorino, responsáveis pela programação "Lavrar o Mar".
Pela minha parte quero dizer-lhes que para além de lavrarem o mar, gradaram-me os sonhos e escarificaram-me os sentidos.

O autor utiliza o
Novo Acordo Ortográfico



Outros artigos de Napoleão Mira

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - quarta, 27/05/2020
Câmara de Beja assegura
transporte de alunos das freguesias
A Câmara de Beja vai garantir o transporte gratuito dos alunos dos 11º e 12º anos das freguesias rurais onde habitam até à cidade (e vice-versa), para que possam assistir às aulas presenciais até final do presente ano lectivo.
07h00 - quarta, 27/05/2020
Homem mata
colega de casa com
faca em Beja
A PSP de Beja deteve nesta terça-feira, 26, um homem, de 59 anos, pela suspeita da prática do crime de homicídio de um outro homem, de 63 anos, com quem vivia numa habitação na cidade.
07h00 - quarta, 27/05/2020
PCP e BE pedem
audições sobre
fábrica das Fortes
Os grupos parlamentares do PCP e do Bloco do Esquerda (BE) apresentaram na Assembleia da República pedidos de audição parlamentar sobre a poluição que afecta a aldeia de Fortes, no concelho de Ferreira do Alentejo, devido à fábrica de bagaço de azeitona da AZPO.
07h00 - terça, 26/05/2020
InCastro apoia
empresas de Castro
A Câmara de Castro Verde tem vindo a desenvolver um plano de apoio à concretização dos incentivos disponibilizados pelo Governo português às empresas no âmbito da Covid-19, através dos serviços do InCastro.
07h00 - terça, 26/05/2020
Alentejo 2020 tem a maior
taxa de compromisso nacional
O Alentejo 2020 fechou o ano de 2019 com uma taxa de execução financeira na ordem dos 27%, a maior entre todos os programas operacionais regionais de Portugal.

Data: 15/05/2020
Edição n.º:

Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial