11h21 - quinta, 27/04/2017

25 de abril de 1974


Vítor Encarnação
No dia 25 Abril de 1974, quinta-feira, o céu estava pouco nublado, o vento era fraco ou moderado de noroeste, eu vivia em Castro Verde, tinha nove anos e andava na 4ª classe.
Foi uma manhã como as outras, ter-me-ei levantado um pouco depois das oito, não tenho dúvidas de que abracei o perdigueiro Piruças, o meu primeiro amor canino, de certeza que bebi café com leite, talvez tenha comido meia sandes de fiambre, tudo à pressa que era preciso correr até à escola e dar antes uns pontapés na bola ou jogar ao berlinde com três covas antes de começarmos as lições.
Os meus tios não ouviam rádio de manhã e portanto ninguém lá em casa ficou a saber que havia uma revolução. E mesmo que tivessem ouvido, o meu tio não teria deixado de ir para a oficina e a minha tia teria feito as camas e teria ido ao pão.
Nessa manhã, horas depois da madrugada esperada pela poetisa, nós jogámos mais do que o costume. Eram já dez e meia quando o professor nos mandou entrar.
O meu professor chamava-se Serrano e eu gostava muito dele. Nesse dia eu ainda não sabia que gostava assim tanto dele, foi o futuro que me disse que ele foi um dos homens mais importantes da minha vida.
Entrámos para a sala da quarta classe, só rapazes, claro, e quando já estávamos sentados de frente para o crucifixo, para o mapa de Portugal e para a fotografia do Marcelo Caetano, o professor da terceira classe mais a terceira classe em peso entraram na nossa sala. Algo de absolutamente estranho se passava. O professor Serrano, de quem eu gostava muito, e de quem fiquei a gostar para sempre, e o professor de quem eu não gostava, ainda sem saber que o odiava tanto, falavam sobre coisas de que nós nunca tínhamos ouvido falar. Só sabíamos que era em Lisboa. Mas não fazia mal, assim não estávamos a fazer nenhum ditado, ou uma redacção, ou a aprender aritmética.
De repente, lá do fundo da sala, talvez emergindo da noite e do silêncio e livre a habitar a substância do tempo, o meu bom amigo Marinho Pintor, que sabia fazer fintas maravilhosas com a bola, talvez por ter já ouvido algum zunzum lá em casa, disse que o Marcelo Caetano estava lixado. O professor de quem eu não gostava, e fiquei a odiar para sempre, dirigiu-se ao Marinho Pintor, levantou a mão gorda e deu-lhe uma chapada tão forte que lhe rebentou o lábio.
Na nossa sala, derramou-se sangue em nome da liberdade. O Marinho Pintor, de quem nenhum político fala, foi o nosso herói, o nosso capitão de Abril. Se eu pudesse punha-o nos compêndios de História.
O professor Serrano disse ao outro professor para ter calma, mas o professor, com sangue do Marinho Pintor na mão gorda, não teve calma.
A terceira classe ficou sem professor. O professor Serrano não nos deixou.
Os dias seguintes foram todos inteiros e limpos. Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar, como ela, somos livres, somos livres de voar.



Outros artigos de Vítor Encarnação

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - quarta, 13/12/2017
Auditoria às contas
da Câmara de Castro
O novo executivo da Câmara Municipal de Castro Verde, liderado pelo socialista António José Brito, decidiu avançar com uma auditoria externa às contas da autarquia do Campo Branco.
07h00 - quarta, 13/12/2017
Odemira revela
vencedores do OP
A Câmara de Odemira revela nesta quarta-feira, 13, pelas 19h00, as propostas vencedoras da edição de 2017 do "Orçamento Participativo" (OP), numa iniciativa que vai decorrer no Salão Nobre dos Paços do Concelho.
07h00 - quarta, 13/12/2017
Magia do Natal
"enche" Almodôvar
A vila de Almodôvar recebe a partir desta quarta-feira, 13 de Dezembro, mais uma edição da "Magia do Natal em Almodôvar", que ao longo de cinco dias vai proporcionar muitas surpresas e actividades para miúdos e graúdos.
07h00 - terça, 12/12/2017
CM Odemira mantém redução de impostos
A Câmara de Odemira vai manter em 2018 o desagravamento do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), da participação no IRS e da Derrama, aplicando valores idênticos aos do presente ano.
07h00 - terça, 12/12/2017
Politécnico de Beja
dedica dia à aviação
O auditório do Instituto Politécnico de Beja (IPBeja) recebe nesta terça-feira, 12, o evento "Open Day/ I Can Fly", dedicado ao sector da aviação e que vai contar com a presença de diversas entodades ligadas à área.

Data: 07/12/2017
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial