15h05 - quinta, 08/10/2020

Feira de Castro


Vítor Encarnação
Este ano não há Feira de Castro, mas se houvesse seria mais ou menos assim.

O terceiro sábado e o terceiro domingo do mês, erguidos acima dos outros, são os cumes do tempo, os picos do ano, a festa das festas.
E eis que vindas do nada, as formigas da chuva trazem a Feira de Castro nas asas e depositam-na no largo. Deixam-na lá em forma de semente que na noite de sexta-feira irá ser fecundada pelos homens com as suas estacas de ferro.
E eu, o amante da feira, acordo cedo. Talvez nem tenha dormido. Está na hora de ir desembrulhá-la, de rasgar a neblina que ainda a cobre, de ir acordar os feirantes, de esticar os panos, de ensaiar a lengalenga dos preços, de pôr o cajado na mão dos ciganos, de aquecer o óleo das farturas, de temperar os frangos, de acender o carvão, de pesar os borregos, de ensaiar a engrenagem do carrossel, de ougar o pó, de arranjar trocos, de mudar a água das azeitonas maçanilhas, de cortar as castanhas, de pintar os palhaços, de experimentar botas caneleiras, de comer polvo assado, tremoços e algodão doce.
Está na hora de mais uma vez entrarmos no ventre de Castro Verde.
Partiremos do João das Cabeças. É lá o baptismo, é lá a missa do vinho, do pão e do cante. É lá que, encostados ao balcão, homens maduros ensaiam o som da terra e afinam as modas. E com os seus canivetes afiados raspam a mágoa e os ossos das cabeças de borrego.
E de todo o lado vem gente para ver este milagre e as estradas todas são caminhos que se dirigem ao altar da feira. E na rua que desce, nessa que é a Via Sacra dos passos lentos e arrastados, vai uma procissão de gente pagando promessas e os carteiristas têm dedos de guitarrista.
Lá mais em baixo os frutos secos recebem-nos de figos abertos com amêndoas lá dentro.
Em frente, as botas de couro cheiram ao tempo dos avós. À direita, os cestos de verga encaixam-se como matrioskas alentejanas. A loiça guardou os montes e as planícies na memória do barro. À esquerda, os casacos desabotoados, esperam pelo frio. As alfaias anseiam por terra viva, estão fartas de estar paradas no alcatrão da rua. Os chineses vendem relógios que dão horas mais baratas que o próprio tempo. Às vezes um balão de ar quente escapa-se para ver a feira de cima.
À noite, as luzes são a iluminação deste presépio de Outono. O menino tendeiro em toalhas deitado. As ruas são Vias Lácteas, caminhos enfeitados de bolas, gabardinas e espingardas de plástico. Rompo por elas como um garimpeiro à procura de qualquer coisa que reluza.
E no circo a trapezista atira-se para o vazio. Muitas vezes o palhaço quando ri, também. A serpente desliza pela contorcionista. Na bancada, as mulheres arrepiam-se. Os homens, de outra forma, também.
O carrossel é a vida a andar à roda. Umas vezes vamos, a maior parte das vezes ficamos.
Os aviões, andorinhas de dois lugares, levantam voo, tocam a lua, roçam as estrelas e aquele e aquela que ali vão, não voltavam. Pelo menos esta noite.
Os carrinhos de choque por fim. Chocam os carros e os olhos de frente. Em mais nenhum sítio da feira, a puberdade escorre pelos corpos como aqui. Estes e também os carros movem-se a electricidade e tocam-se com as borrachas da carne. Ter fichas é dominar o recinto e aceder a um estatuto de conquistador. De repente acabam-se as fichas e o resto.
Numa tenda os homens cantam a despique.
Cá fora, em uníssono, a feira responde.



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Data: 23/10/2020
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