09h44 - quinta, 11/06/2020

O sopro do coração


Napoleão Mira
No caminho que me conduz ao Alentejo por estradas secundárias que atravessam povoações quase desertas, deparo-me com uma velha carrinha anunciando um espectáculo circense a levar a cabo "nesta bonita localidade", conforme apregoava o speaker de serviço através do som rafeiro debitado pelos altifalantes instalados no topo daquele estranho veículo todo ele coberto de cartazes alusivos às atracções que o circo tinha para apresentar.
De repente, sou invadido por um estranho espírito que me faz recuar no tempo umas boas dezenas de anos e me faz lembrar dos tempos em que ser artista de circo era uma das coisas que queria ser quando fosse grande.
Tenho especial apreço por circos pobres, mais propriamente por saltimbancos (amo esta palavra!) sem eira nem beira, que se apresentam em palcos que normalmente são os terreiros ou praças centrais das aldeias em noites quentes de Verão.
Numa dessas noites de um Verão longínquo, assisti pela primeira vez a uma actuação de uma dessas trupes de nómadas que me deixaram a bailar nos olhos o desejo de com eles partir. Talvez fosse a minha alma cigana clamando por liberdade.
O único equipamento que possuíam era os pilares metálicos que sustentavam o trapézio voador, que lá mais para a noitinha haveria de me fazer sonhar, nas mirabolantes, arriscadas e vertiginosas manobras dos trapezistas de serviço.
No meio daquela alegre "tropa fandanga" havia uma menina, de seu nome Cláudia, uma criança pouco mais velha que eu, que despertou no meu breve coração de petiz um batimento descompassado que então não sabia identificar. Só sabia que me sentia bem se estivesse ao pé dela!
Cláudia era equilibrista desde tenra idade conforme me confidenciou nos poucos momentos em que ficámos a sós, mas os suficientes para que nos entendêssemos por sorrisos e olhares cúmplices naquela noite que de tão eterna que foi ainda a tenho presente na lembrança.
Quando Cláudia subiu às alturas e se propôs a atravessar a distância que separava os dois pilares metálicos em cima de um cabo de aço, o músculo fundamental parecia galgar-se-me do peito.
Lá em cima, onde o céu parece estar mais perto que a terra, Cláudia agradecia sorrindo para o extasiado público enquanto esfregava nas mãos o aderente pó branco que depois de aplicado soprou nitidamente na minha direcção, e que, com as luzes e a ajuda da minha imaginação, se me pareceu haver-se transformado em estrelas.
Foi então que segurando a enorme vara que todos os equilibristas possuem, iniciou com passos pequenos mas seguros a sua caminhada sobre o finíssimo cabo que a haveria de levar ao outro extremo do aéreo percurso.
Cláudia não andava, pairava suavemente como se de um anjo se tratara descendo dos céus.
Depois de receber os aplausos do público, veio a terreiro vender postais ilustrados com a sua figura, coisa a que a populaça acedia sem resmungar, até porque o espectáculo era gratuito e a venda destas recordações a única forma de compensação monetária que recebiam.
Quando passou por mim, presenteou-me com um beijo na face e ofereceu-me o retrato que até hoje guardo ciosamente.
Da Cláudia nunca mais soube. Ficou apenas a memória presente dum menino que numa determinada noite de Verão descobriu que afinal o coração não serve apenas para bombear o sangue nas artérias.
Enquanto a velha furgoneta roncando desaparecia no aperto duma curva daquela minúscula aldeia, sobreveio-me a lembrança de uma estonteante e cálida noite de estio.



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