10h15 - quinta, 10/10/2019

Não há feira como a de Castro!


José Francisco Colaço Guerreiro
Não há feira como a de Castro
Nem lenha como a de azinho
Não há filhos como os dos padres
Que ao pai chamam padrinho


Perdeu-se o sentido às décimas, mas perdurou o mote, enaltecendo, desde egrégios tempos, aquela que é ainda a grande feira do Sul, um evento que marcou durante séculos o calendário das gentes campaniças. Mais do que os meses, os acontecimentos festivos agendavam o tempo e a vida, ditavam os procederes, serviam de azimute para nos localizarmos temporalmente. Era o Ano Bom, depois o Entrudo, a seguir a Páscoa, não tardavam os Santos e até à Feira de Castro era um pulo.
Fazia-se isto ou aquilo, antes ou depois da Feira de Castro. Por esta ocasião, esperada durante meses, tratavam-se de assuntos, vendiam-se gados e produções, compravam-se enxovais e farpelas, renovavam-se as alfaias, abasteciam-se as despensas dos legumes para as comedias, repunham-se nas cozinhas os barros partidos, compravam-se as empreitas, frutos secos, varejas, arcas, cadeiras, bancos, decas, tabuleiros e tábuas de amassar, vindos de Monchique juntamente com os perinhos que durante meses perfumavam a casa e as gavetas da roupa lavada.
Mas isto de feiras e de romarias nunca não se entende bem no presente o que as fez grandes no passado. Porque vingam umas e outras desfalecem, porque crescem umas e outras minguam. Não se vislumbram agora razões para que a Feira de Castro tenha acrescentado e feito perdurar ao longo dos séculos tanta mística e tanta euforia a pontos de terem determinado não só a sua sobrevivência actual mas, particularmente e de uma forma determinante, a própria importância e o crescimento da vila, que de pequeno aglomerado sem peso passou a burgo com importância no roteiro da economia regional.
Foi a feira que fez a vila.
Até aos anos Quarenta todo o desenvolvimento urbano de Castro era ditado em função e por mor da feira.
De fora, de muito lado, de todo o Baixo Alentejo, os lavradores mandaram fazer aqui a sua casa. Eram as casas de pousada para nelas se instalarem com a família e a arrearia durante os dias da feira. Vinham muito antes. Abalavam muito depois. No resto do tempo, alguém da terra, compadre, afilhado ou recomendado, nelas ficava a morar, a cuidar, a conservar.
Por outro lado, os naturais ao fazerem as suas próprias casas tinham sempre em mente a semana da feira e os benefícios que dela podiam colher. Nos quintais mandavam fazer grandes cavalariças para arrecadarem as muares que os marchantes ali metiam pagando um tanto à argola. Pela mesma razão, aproveitavam-se e guardavam-se as águas das chuvas, de Inverno encaminhadas para cisternas que depois se vendiam a um tanto o caldeirão.
Tempos antes do terceiro domingo de Outubro, começavam a rondar os forasteiros à procura de quartel. Assim se chamava ao poiso que os residentes davam, ou melhor, vendiam aos feirantes. Normalmente, juncavam-se as casas de fora e ali dormia gente às laradas, em colchões e enxergas, estendidos pelo chão.

Castro Verde sem verdura
Criado numa ladeira
Muito parvo é quem lá está
Tirando os dias de feira


Outro mote, outras décimas que no tempo também se perderam. Sobra, no entanto, a evidência do quanto agrado encerrava passar uns dias na Feira de Castro. Bailes, bailaricos, andar nos adjuntos, passear com os mais que tudo, enfeirar, estrear roupas, empapoilar-se, mostrar trajos novos.
Não podemos já avaliar nem valorizar as emoções antanho vividas, que traziam as gentes em carros e carroças e também a pé, de distâncias tão grandes. Era o negócio que ditava a feira, mas era principalmente o folguedo que a fazia ser grande de povo e de entusiasmos. As noites passavam-se em conversas, cantes e descantes, copinhos e extravagâncias que na memória perduravam para sempre e na vida compensavam todas as privações sentidas.
Por isso, a Feira de Castro era para os de cá, tanto como para os de fora, um acontecimento esperado e vivido intensamente no flagrante e por antecipação.Esta terra mudava o rosto quando se avizinhava a data. Caiavam-se as paredes, faziam-se as barras e dentro de casa escamichava-se tudo, alindava-se o que as posses permitiam. Eram as limpezas da Feira de Castro.
A euforia saía à rua e os rostos andavam mais sorridentes. Por esta ocasião já se dizia: está chegada a feira, oxalá não chova! Davam-se palpites acerca do tempo e da enchente de povo que se aproximava. As conversas cruzavam-se sempre convergentes no mesmo tema. Este ano há já tanto cigano por aí que é certo que vamos ter uma grande feira. Pedia-se, quase se rezava, para que assim fosse, por motivos que tinham a ver com a venda das argolas, dos caldeirões de água, das mantas tecidas ao longo do ano, dos quartos de quartel, mas também por bairrismo.Os castrenses cresciam, inchavam tanto mais quanto maior fosse o burburinho, quanto mais avassaladora fosse a enchente, quanto mais inesquecível fosse a feira para os visitantes se renderem a pontos de fazerem novas décimas, agora já esquecidas, com alguns motes ainda lembrados, como este que começava:

Adeus, oh Feira de Castro
Bem te fico conhecendo …



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Data: 21/02/2020
Edição n.º:

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