12h40 - quinta, 07/03/2019

Adeus ó Fonte do Linhas


Napoleão Mira
Levantou-se mal o sol raiou. Percorreu o mesmo caminho que calcorreara vezes sem conta. Era uma espécie de chamamento. Uma vereda de espanto que o conduzia sempre ao mesmo local.
Aí chegado, despia a t-shirt que lhe cobria a magreza dos vinte anos. Arremessava os longos cabelos para trás, de forma a no movimento seguinte os mergulhar de um só golpe nas águas cristalinas da nascente.
Depois, recobrado do choque termal, com um vigoroso movimento em espiral, atirava para as costas a farta cabeleira encharcada. Era um ritual quase diário. Uma coisa em forma de pele que não sabia explicar.
Sentia-se deus. Poeta dos silêncios da planura. Rei Neptuno dos pegos e ribeiras e, em particular, deste local tão assumidamente seu: a Fonte do Linhas.
Amava o chão que pisava. Venerava a lonjura e a solidão. Estremecia com o naufrágio do sol naquele mar longínquo que era a linha do horizonte.
Certo dia teve de partir. Como tantos outros, foi atrás do sonho helvético de uma vida melhor... como se isso fosse possível!
Ainda pensou em regressar, mas as necessidades do homem sobrepuseram-se aos devaneios do poeta.
Para se compensar, mudou mentalmente a toponímia dos corredores do armazém de viveres onde labutava. O corredor das mercearias passou a ser, na sua cabeça, o Pego da Maria Jacinta. O das bebidas, o do Alcorão. O dos produtos de higiene, onde predominavam os champôs, apelidou-o naturalmente de Fonte do Linhas. E assim, sem cá estar... nunca de cá saía!
Passados anos, regressou. Palmilhou ansioso o caminho que os seus passos ajudaram a alargar.
Aí chegado, julgou ter-se enganado. No lugar da nascente, estava uma casa de onde era bombeada a água da fonte brotada e que agora abastecia a população.
Uma tristeza imensa apoderou-se-lhe do peito. Passou o dia calcorreando os campos da sua crença. Embriagou-se de silêncio. Quando pelo sereno regressou ao povoado, vindas lá do fundo de uma venda, ressoavam as vozes dos homens que cantavam uma moda por si desconhecida e que começava assim:

Adeus ó Fonte do Linhas, 
já não tens água clara.
Tens água com abundância
mas toda a gente a enfara.



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