16h37 - quinta, 09/08/2018

E por isso canta-se


Vítor Encarnação
No fim do estio, o vocabulário sobre o Alentejo existe meramente rente a um chão de pó. São palavras rasas, osgas velhas, cigarras mortas, ribeiras esvaídas, saudades de água. O calor ceifa o significado das coisas, corta-o cerce, cala melancias e derrete flores. O alfabeto do sul atravessa noites e dias de faísca e ferve nos horizontes em brasa. E por fim sucumbe, cego de luz. No tempo do restolho, só as árvores dizem as palavras de pé, tudo o resto cai exausto de tanto azul. Só sobram uvas e letras de palha que o vento estrambalha campos fora.
E por isso canta-se.
É preciso pois deixar arrefecer este abecedário de sentidos, é preciso recuperar do desmaio, é preciso esperar que o sol amanse os dentes de fogo e os homens lavrem a terra, revolvam a dormência e semeiem novas palavras que mais tarde, quando tiverem substância, irão explicar as searas. Deixemos abalar as andorinhas e as nuvens hão-de vir regar esses verbos silenciosos que se enraízam. E a noite vem pedir meças ao dia e ganha e o frio levanta-se para ir inventar vinho e laranjas e o chão é um caderno de poemas caídos das árvores. As azinheiras retalhadas são já bocados de lume aceso.
E por isso canta-se.
A lonjura é tanta que o cinzento do céu tem um tamanho desmedido, vai de uma ponta a outra do que se avista, não tem fim, parece uma pedra suspensa sobre a vida. Os olhos erguem-se, os olhos querem que se cumpra esta promessa de água, mas o chão do firmamento não se abre, mais fácil é os olhos choverem. As geadas escrevem coisas frias na noite. De roda do fogo a cisma é sempre maior, a cisma é a falta que fazem os que já partiram, a cisma é a saudade maior de todas, maior do que ela não há mais nada a não ser a esperança. De roda do fogo atiçam-se lembranças do que fomos e agora já não, bebe-se vinho, pega-se em netos ao colo e espera-se pela cinza.
E por isso canta-se.
As andorinhas trazem as palavras que faltavam. E com elas exclamam a claridade e a imensidão. Há letras às cores que nascem na vertigem dos campos, há letras roxas, amarelas, brancas, de sangue, letras que se juntam para fazerem uma sinfonia de silêncio. Na língua da natureza, as flores são adjectivos espetados na terra. Esta terra inflamada de pássaros, esta terra com horizontes dentro de horizontes dentro de horizontes, esta terra pegada ao mar. Este chão que é um céu verde.
E por isso canta-se.



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