11h27 - quinta, 28/06/2018

Laos - Luang Prabang


Napoleão Mira
Hoje é dia de explorar cantos e recantos desta cidade Património da Humanidade segundo os padrões da Unesco.
Ao embrenharmo-nos na cidade através das suas múltiplas ruas e ruelas, vamos dar ao casco antigo. Aqui predominam os monges e, inevitavelmente, a vida monástica, com os seus templos, escolas, oficinas e alojamento para estes seres que escolheram como modo de vida a incessante busca da pureza através da meditação.
Se na Ásia as pessoas, ruas e cidades são ruidosas, este espaço de onde escrevo é um oásis de silêncio e contemplação.
Sinto-me bem aqui. Na verdade até parece que me esqueci de quem sou. Absorvo de cada momento aquilo que este tem para me dar. Tenho uma espécie de esponja no olhar.
Regressámos ao mercado para começar o dia. A cada jornada que se repete, renasce um novo espectáculo de cor e de surpresa. Os produtos são comercializados segundo as regras locais, o que para muitos ocidentais pode parecer chocante segundo os nossos exigentes padrões de higiene e organização.
Esta gente come o dia inteiro. Come na rua, na loja, no mercado, no escritório enquanto atende clientes; tudo na maior das naturalidades. Há que ter em consideração que horário de trabalho é coisa que por aqui ninguém ainda ouviu falar. Laboram consecutivamente 14 ou 16 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano e sempre de sorriso no rosto.
Segundo os nossos padrões ocidentais... é obra!!
São 12.30 horas, parámos para almoçar numa zona calma da cidade.
Numa esquina que vendia sopas decidimos parar para almoçar. Cheiram bem os caldos que as duas orientais, nossas companheiras de mesa, comem.
Quando as nossas chegaram, procurei imitar as raparigas locais e introduzi na sopa aquilo que lhes vira juntar, mas em proporções que denunciavam precauções pela minha parte, não fosse o diabo tecê-las!
Como a fome era substancial, meti logo uma colherada à boca. Quando as papilas gustativas detectaram os inusitados paladares gerou-se dentro de mim um invulgar turbilhão, entrando de imediato em alerta vermelho.
A minha boca deixou de o ser. Passou a ser o Vesúvio em dia de erupção, tal era o fogo que me invadia e que subia das entranhas até aos lábios que por esta altura já deixara de sentir.
Olhei para quem estava ao meu redor. Tudo normal. Só que os meus olhos insistiam em sair das órbitas. Fiquei mesmo com receio de um deles, ou quiçá os dois, me caírem na sopa.
A nossa companhia ocasional não foi capaz de conter o riso e desmancharam-se de gozo ao ver a aflição estampada no meu rosto.
Nunca tinha experienciado tamanha sensação. Agora quando me perguntarem se sei o que é o Inferno, já poderei responder com conhecimento de causa.
Depois da experimentação gastronómica relatada, passámos parte da tarde a deambular pelos recantos mais recônditos desta cidade milenar.
O artesanato da região é, como já disse, raro, belo, fora do comum, bem feito e barato, daí os turistas de passagem por esta cidade confluírem para este espaço em busca da lembrança desejada.
Num momento em regressámos à casa de hóspedes para depositar as mercas e descansar uns minutos começámos a ouvir o som grave e seco de um gongo que invadia a cidade. Logo outro de outra tonalidade sonora mais distante se lhe seguiu, lá dos confins ainda outros se lhe juntaram, deixando no ar uma certa sonoridade bíblica, solene, a anunciar algo de importante que estaria para acontecer.
A Natália precipitou-se para a rua, disposta a esclarecer o mistério dos gongos. Eu preferi ficar ali, em silêncio, experimentando a sensação de quem está em todo o lado e em lado nenhum, no lugar certo e à hora certa.
Quando regressou, a Natália trazia a explicação para tão cadenciada sinfonia de gongos. Hoje é noite de lua cheia, coincidente ainda com outros azimutes não decifrados no calendário das coisas da alma. Quando se conjugam todos estes elementos, todos os monges noviços têm de rapar do corpo todos os pelos, mesmo os das sobrancelhas.
Lá pelas quatro da manhã, quando deveria imperar o silêncio, voltaram a ressoar os mesmos gongos. Não tantos como à tarde nem por um período tão prolongado, mas mesmo assim uma toada envolvente dando a pressentir que algo estava a acontecer.
Voltei-me para a Natália e readormeci no calor do corpo dela e no zoar dos gongos dos monges de Luang Prabang que povoavam esse território chamado...distância.
Bem que a vida podia ser sempre assim! – Dou comigo a pensar antes de me render aos braços de Morfeu.



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