11h35 - quinta, 14/06/2018

Suicídio


Vítor Encarnação
Nos últimos dez anos foi muito poucas vezes à vila. Desde que os filhos partiram e os vizinhos estão velhos como ele, a sede de concelho é apenas um pomar de luzes maduras plantado lá ao longe. Quando o céu se fecha e a noite destapa a vila, os olhos dele riscam, planície adentro, uma linha recta entre a soleira da porta e a torre da igreja. Dez quilómetros apenas. Duas léguas tão curtas, em tempos feitas a pé, com uma perna às costas, dando pontapés numa estrela, em madrugadas frias com sabor a vinho e a bagaço na boca.
As cigarras já se calaram, fartas do seu destino dão já lugar às asas aveludadas dos morcegos e ao silêncio acetinado das osgas. E o homem comungando do segredo dos bichos, senta-se no poial de pedra, fixa as luzes da povoação e imagina-se destemido, zombando da velhice e da morte. Agora tudo o detém: o corpo mirrado e doente, a mulher agarrada à cama e principalmente este isolamento. Não há vivalma em redor. Morreram ou foram para o Lar da Misericórdia. Antes os primeiros, pensa ele.
Só o caixeiro-viajante lá passa para deixar o pão e algumas mercearias uma vez por semana. Quando a carrinha se afasta leva o barulho todo que havia no monte. Nem o cão tem a quem ladrar. Às vezes um pássaro risca o silêncio com o seu chilreio. O mais é solidão.
Acabou de chegar da vila. Enverga um fato negro, uma gravata preta e só ele sabe, só ele sente que o sol também se pôs escuro. Não foi beber vinho, nem receber a reforma, acabou de chegar do cemitério, foi lá enterrar a mulher e quem o olhasse bem veria que ele próprio já não veio de lá todo. Trouxe só um chapéu em cima dos ossos.
O funeral teve poucos acompanhantes. Os velhos e cansados só levam o indispensável até à cova: o corpo na urna, os filhos ao lado no carro funerário e um ou outro conhecido mais atrás.
Quando o corpo da mulher baixou à terra, ele sentiu que podia já morrer ali, poupava tempo e despesas. Era só deitar-se em cima do caixão, fechar os olhos e receber a terra por cima. Morto já ele estava. Os filhos é que não deram por isso. E quando ele chegou ao monte, já eles estavam em Lisboa com as lágrimas enxutas. A vida continua. A morte está prestes.
Entrou em casa. Olhou a cama deserta, olhou o deserto que era a cozinha, a cavalariça, a horta, o galinheiro, o poial de pedra e chorou como não chorava desde criança.
Tinha chegado ao fim da estrada, ao bolor do pão, ao vinagre do vinho, ao azedar do leite, à extrema-unção, à lavagem dos cestos.
Se a vida toda já morrera de que lhe servia bater ainda o coração!
No meio da courela, o monte é agora um fantasma entrouxado de branco. Um nevoeiro de taipa. As quatro paredes parecem quatro sepulturas verticais, campas erguidas ao alto. A cal estala e já não há pincel que a componha. O monte não precisa de vendavais para ser triste.
Aproximou-se do cão e soltou-o, passou-lhe a mão pelo pêlo e o animal uivou de uma maneira lancinante. Cúmplices da decisão tomada, homem e cão, companheiros de raiva, dirigem-se para sul, vão os dois à capela da Senhora da Cola. No empedrado do átrio ajoelha-se o homem em prece. Ergue os olhos aos céus à procura de Deus, busca-o no azul, quer desculpá-lo.
Regressam ao monte, cão e homem normalmente caçadores, são aqui, cobertos de estevas, apenas duas presas do destino.
Dá comida ao Solitário, assim se chama o cão. Come também ele solitário a última ceia.
Bebe um copo de água, como faz sempre antes de ir dormir. Dirige-se à figueira, passa a corda pelo tronco mais forte – belos figos comeu ele pendurado neste tronco – puxa-a para verificar que não se parte, faz um laço e olha em redor. Tira a gravata preta, e põe outra de baraço ao pescoço. Ajeita-a, aperta-lhe o nó. Não se arrepende do que vai fazer, só tem pena de não se poder enterrar a si próprio. Assim não dava trabalho a ninguém.
O caixeiro-viajante só virá para a semana.



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