18h21 - quinta, 31/05/2018

O Povo do Lago


Napoleão Mira
Nem só de pão vive o homem. Que é como quem diz: nem só de Cusco e Machu Picchu vive o Peru.
O dia de hoje, aquele em que escrevo, foi um daqueles dias que dou por abençoada a minha existência.
Aqui, a mais de 3.800 metros de altitude, existe o maior lago navegável do planeta, com os seus 8.560 quilómetros quadrados de superfície aquática e 280 de profundidade. Falamos, logicamente, do Lago Titicaca, um espelho de água dividido entre o Peru e a Bolívia em plena cordilheira andina.
É neste "mar" que vive o povo do lago. É aqui que vivem os Uros. Uma comunidade que sobrevive desde sempre em ilhas flutuantes feitas à base de uma planta que cresce no lago, a totora; uma espécie de junco ou atabua, de grande capacidade flutuante.
Todos os Uros não serão mais de 2.000 vivendo em cerca de 120 destas ilhotas flutuantes construídas com a tal totora.
Em cada uma delas vive uma pequena comunidade de entre 10 a 20 pessoas que, até à chegada do turismo e antes dos incas e dos espanhóis, já sobreviviam da riqueza do lago. Hoje os incas desapareceram, os espanhóis foram para a terra deles e os Uros por cá continuam, dizem-nos com indisfarçável orgulho.
No dia que por lá passámos assistimos ao recolher da criançada vestida a rigor para irem à escola a Puno, ao acender do lume (sobre uma plataforma de palha, sic!) para a cozedura em panelas de barro das refeições do dia, à moagem de cereais, transformados em farinha esmagado por uma pedra (para turista ver, deduzo!), à confecção de roupas e outras actividades inerentes à vida diária de quem sobrevive nestas micro-ilhas feitas basicamente de palha.
Todo o chão da ilha é feito de totora, mas mais abaixo existe toda uma placa compactada de uns dois metros do mesmo material que consolida esse mesmo espaço conquistado ao lago.
Acima deste "chão" é então construída mais uma elevação compacta de cerca de 50 centímetros onde são assentes as cabanas onde esta comunidade vive. São habitáculos rudimentares, como rudimentar sempre foi a sua vida. Mais uma vez a totora é o material predominante na construção destas necessidades básicas.
Quem diz cabanas diz barcos e, mais uma vez, a palha de totora servindo de matéria prima para quase tudo na vida, mesmo para construir barcos que levam mais de dez pessoas e circulam de ilha para ilha.
As plataformas estão hoje fixas com uma âncora em cada extremidade, mas tempos houve em que não era assim e, muitas vezes, ilhas peruanas acabavam por aparecer na Bolívia, ou vice-versa, o que causava alguns atritos regionais que os Uros não entendiam. Afinal, a sua pátria era o lago e o lago não tinha fronteiras.
Com a chegada do turismo, terão abandonado o sistema de trocas de que dependiam, melhorando de alguma maneira o seu modo de vida, integrando-se nas sociedades dos países por que optaram, mas mantendo-se fiéis à sua imagem de marca. Continuando a viver nas ilhas. Perfilhando da mesma organização social. Orgulhando-se da sua ascendência multi-secular. Enfim... Fazendo da sua diferença um enorme atractivo para quem os visita, como foi o nosso caso.



Outros artigos de Napoleão Mira

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - quarta, 24/04/2019
Baixo Alentejo celebra
45 anos de Liberdade!
António Zambujo, Paulo de Carvalho, The Gift, Gisela João e Bárbara Bandeira surgem no leque de artistas que, na próxima semana, vai passar pelo distrito de Beja, no âmbito das comemorações de mais um 25 de Abril.
07h00 - quarta, 24/04/2019
Ovibeja abre portas
e espera "casa cheia"
Durante cinco dias todo o Alentejo deste mundo vai caber no Parque de Feiras e Exposições "Manuel Castro e Brito", em Beja, que a partir desta quarta-feira, 24 de Abril, recebe a 36ª edição da Ovibeja.
07h00 - quarta, 24/04/2019
Câmara de Castro
promove homenagens
A Câmara Municipal de Castro Verde vai promover nesta quinta-feira e sábado, dias 25 e 27 de Abril, dois momentos de homenagem pública, todos a título póstumo, a três personalidades do concelho.
07h00 - terça, 23/04/2019
Baixo Alentejo já aprovou mais
de 100 milhões em fundos europeus
O programa operacional regional Alentejo 2020 já aprovou para o Baixo Alentejo mais de 100 milhões de euros em projectos vocacionados para as áreas da saúde, equipamentos sociais, espaços de fixação empresarial e escolas.
07h00 - terça, 23/04/2019
"A Ovibeja é uma
espécie de Ronaldo"
Na véspera do arranque da 36ª Ovibeja o presidente da ACOS-Agricultores do Sul, RuiGarrido, fala ao "CA" sobre a importância da feira para a região e antevê dias de "casa cheia" na edição deste ano, que é dedicada à temática das alterações climáticas.

Data: 19/04/2019
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial