12h42 - quinta, 05/04/2018

El Condor Pasa


Napoleão Mira
À medida que a estrada serpenteava abria-se à minha frente um dos cenários mais belos a que os meus olhos assistiram. O Vale do Colca.
Milhares de socalcos pintalgados das várias tonalidades do verde até desmaiarem no castanho da terra são as cores que adornam esta manta de retalhos esculpida pelo homem na natureza há centenas, quando não mesmo, milhares de anos.
São uma herança pré inca, alviltra-se que da civilização Cabana, a construção em terraços de toda esta zona marginada pelo rio Colca. Também consta, que durante o século dezoito o vale foi abandonado, tendo como motivo bastante, uma prolongada seca de trinta anos. Quando as chuvas voltaram, os homens e os animais regressaram para não mais o abandonar.
A panorâmica que nos é oferecida é esmagadora. Aqui e ali paramos em miradouros para congelar via fotografia os momentos vividos; para que mais tarde sirvam de testemunho à nossa passagem por tão afortunado lugar.
Umas dessas paragens não é num miradouro, mas sim, numa espécie de serviços aduaneiros do vale, onde toda a gente paga para entrar, sendo que, o valor mais alto (20€) é para os turistas não nacionais, seguidos dos latino-americanos, depois dos nacionais, terceira idade e estudantes respectivamente.
Num dos últimos mirantes em que parámos coincidia com o início do grande desfiladeiro do Colca, mais conhecido pela sigla inglesa de Colca Canyon.
Consumimos horas, minutos e segundos em frenética absorção do que se nos é facultado experimentar. Nesse exercício esponja, somos conduzidos ao ponto mais alto desta manhã de viagem; local esse conhecido como: Cruz do Condor.
Lá em baixo os vertiginosos abismos do segundo maior desfiladeiro do mundo (mais de 3.500 metros de profundidade), lá em cima, a raiar os céus, os cumes nevados da infindável cordilheira dos Andes, e nós aqui, entre as profundezas da terra e o infinito dos céus.
Nisto, saído da negritude do desfiladeiro voando montanha acima surge-nos à nossa frente, imponente, majestoso, imperial, o condor dos Andes.
A envergadura dos seus três metros de asa a asa, diz-nos de algum modo, quem é o monarca daquelas paragens. Quem é o imperador do desfiladeiro. Quem é o Deus das alturas. Quem na verdade é o indígena e quem é o intruso.
Aqui, neste preciso lugar, na Cruz do Condor, seu habitat por natureza, vive a maior ave necrófila do planeta. Alimentando-se de carcaças de animais mortos, paira lá no alto dos céus aproveitando o calor das correntes de ar, para que assim, mais planando que voando, possa patrulhar toda a sua área de jurisdição.
De súbito dou comigo a pensar na velha música El Condor Pasa, Património Cultural do Peru desde 1993. Este é o nome duma peça de teatro musicado de Daniel Robles e Julio de La Paz estreada em 1913. Foi ainda incluído no Disco de Ouro enviado para o espaço pela nave Voyager em 1977 com importante informação sobre o nosso planeta.
Estão identificadas mais de 4000 versões musicais e 300 letras adaptadas a esta música, sendo que a mais conhecida pertence à dupla Paul Simon e Art Garfunkel que a terão levado aos quatro cantos do mundo. Gosto de pensar que estes terão pisado os mesmos recantos que eu, antes de recriarem esse monumento musical que tem na grande ave dos Andes a sua inspiração.
Valeu a pena ter palmilhado tantos quilómetros só para aqui estar. É recompensador sabermos que a qualquer momento podemos ser premiados com o avistamento destes gigantes, coisa que apenas nestas paragens pode acontecer.
Valeu a pena!



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