14h51 - quinta, 22/03/2018

À espera das andorinhas


Vítor Encarnação
Depois da água maior, alguém afastou o pano negro da frente do mundo e prendeu-o às ombreiras da luz com dois ramos de flores de cheiro. Agora, neste alvor da Primavera, as cores da manhã rebentam como um fogo-de-artifício diurno e os pássaros carregam o azul do céu nas suas asas madrugadoras. Das janelas dos meus olhos vejo o sol lambendo, provando o suor das ervas e dos telhados que a noite inteira e funda lá deixou.
Saio de debaixo de mim, sacudo-me e saúdo-me. Guardo o casaco e fecho as nuvens dentro dos bolsos. Será demasiado cedo?
Saio para a rua e não encontro o vento pendurado nas árvores. Serenos, os cães encostam-se às soleiras das portas sorvendo o calor que se levanta. Hoje cheira-me a céu fresco e sinto que a vida já palpita na barriga da terra toda.
Os bichos recebem uma ordem para nascer. É um murmúrio que percorre os torrões, as ribeiras e os ninhos. E cada um desentorpece à medida do murmúrio de vida que traz dentro de si. De um útero. De um ovo. De um casulo. (A primeira borboleta que cores terá?)
Tenho os olhos pintados de tanto verde. No meio deles, nas pupilas, trago molhos de macela branca e amarela. E por dentro, no regato das lágrimas, ainda há água porque também há choros felizes.
- Nos teus lábios apanhei um lírio roxo com os meus -
No firmamento, por cima de mim e das coisas todas, uma cegonha estica as asas e o horizonte. Com o sol às cavalitas, escreve palavras no céu e é preciso algo mais do que saber ler para perceber o que elas dizem. Parece que é só silêncio, mas não é. Leiam bem. O maior significado vem de dentro.
As árvores estalam, rebentam a casca do tempo e as folhas começam lentamente a voltar ao ponto de queda. Talvez sejam as mesmas. Ou talvez tenham apenas trocado de árvore.
Que sémen é este que fecundou o ventre do mundo? Que desejos se alojaram no âmago da vida? Que êxtase tão grande domina o sangue, as raízes e as pétalas? Desconfio que é isso que os grilos contam quando cantam.
Os corpos, os nossos, também se incendeiam. Um bichinho qualquer acorda a pele e ao correr por cima dela e por dentro dela, é como se unhas boas nos afagassem o desejo todo de lés-a-lés. E se a natureza assim fosse, parece-me que da carne também nasceriam flores. Porque asas, essas, nascem. Quando tudo é princípio, os olhos bebem-se. Até à última gota. Até que as mãos os rendam e vão elas, confusas e ansiosas, à procura de segredo da germinação, ao encontro de uma maçã depositada a meia - encosta do corpo.
Ele chama-se Adão, ela Eva. Assim será eternamente. Sentam-se à beira dos lábios e colhem sabores nas bocas. Talvez a frutos. Ou a erva. Ou a poemas. Ou só a carne viva.
As andorinhas estão à espera que as chamem.



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