16h06 - quinta, 22/02/2018

Mudar de vida


Vítor Encarnação
Tinha decidido mudar de vida. Era verdade que não sabia muito bem por onde ir, tinha dúvidas sobre o destino, inquietava-o o caminho, pois se é certo que temos um horizonte à frente dos olhos, não é menos verdade que há sempre outro atrás das nossas costas. E este, o que passou, aquele que já morreu, desvia-nos o olhar e desfoca o que ainda há-de vir.
Tinha decidido. Bastaria virar a cabeça e o coração, este se calhar todo, e o dedo indicador teria de ter a firmeza de apontar o futuro. É lá à frente que nós estamos, só chegamos a algum lado se soubermos que a consequência de nós está lá a frente.
Levou uma infinidade de anos a ruminar a ideia. Tinha vontade de ser outro homem, outro conteúdo para o corpo. Queria dar descanso às memórias, mudar as linhas das mãos, chamar-se outro nome, limpar o pó do tempo metido nas unhas e no rosto. Sonhou que podia ser o útero de si mesmo, o seu próprio limiar, o embrião de um outro destino, o casulo da sua fuga.
Sonhou que seria gota de nascente abrindo brechas na rocha, indo embora como uma lágrima que nunca mais volta aos olhos que a choraram. E depois esse pingo de água corre pela face ou pela montanha abaixo – vá lá a gente saber a diferença – e junta-se a outras se a fonte for grande e a tristeza ainda maior.
Olhou para as mãos e viu-as abandonadas. Abriu-as de par em par e à porta da lembrança viu que cada uma delas já tinha sido feliz. No tempo em que eram chão de carícias. Agora nelas pouco cabe. A não ser um nó cego em cada dedo.
As pessoas que cresceram com ele tinham tomado as mesmas formas. Protagonismos. Carros. Cursos superiores. Empregos. Casa. Filhos. Empréstimos. Bicas. Digestivos.
Televisão. Férias.
Era urgente parar. Regressar ao princípio da opção. Sorrir perante a encruzilhada. Temperar a escolha com o doce e o fel da experiência. Redefinir a razão de ter cinco sentidos, de ter pernas, de ter braços, olhos, carne, pele e boca, de ter palavras para dizer e para ouvir. E cada uma ter finalmente som e recheio. À mesa de um café. À beira dos olhos. No pousio de um leito. E voltar a não ter medo da noite.
O tempo, a idade, a vida também perdoam. É esta a ideia. É esta a frase mestra destes anos de vida que passaram. Sabe que não tem de partir para outro lugar na terra. Sabe que é dentro de si que o tempo se faz. Que as emoções se abrigam, os nomes respondem, os abraços se sentem, os beijos se guardam, as mãos se apertam, os corpos se trocam. Aqui onde está. Aqui onde é. Não precisa de malas, nem de arrancar os pés do chão que pisa.
É aqui neste pedaço de mundo que lhe calhou, que ele terá de ter a coragem de renascer.



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