16h16 - quinta, 09/11/2017

João Cigano


Napoleão Mira
Omeu nome é Terra, João Terra, mas aqui, na minha aldeia, todos me conhecem por João Cigano. Não que eu não goste do nome Terra, para dizer a verdade, gosto e muito, mas Cigano é o sobrenome que vai comigo, que me assenta como uma luva. Sinto-me mesmo orgulhoso quando ouço alguém dizer – "Olha, vai ali o João Cigano".
Já me chamam assim há muitos anos. Talvez uns cinquenta. Foi uma coisa que se me pegou assim à pele, como se fosse uma tatuagem, uma imagem de marca.
Para se saber porque é que assim me chamam, precisamos de recuar meio século pelo menos.
Tal como hoje ainda acontece, esta estirpe de gente, quando aportava a uma localidade acampava nas aforas do povoado.
As mães alertadas com a chegada dessa maralha de tez escura, vá-se lá saber porquê, chamavam para a sua beira os filhos pequenos, protegendo-os de um medo que elas mesmo carregavam, mas na verdade não sabiam explicar. Era coisa ancestral. Recomendações de dedo em riste. Conselhos recebidos em noites de invernia à volta da lareira. Um dos tantos temores que faziam parte do crescimento e da educação de então e mesmo de agora.
Naquele tempo eram várias as explicações para esse infundado receio. O mau olhado deitado pelas ciganas, o rapto de crianças ou mesmo o corte raso das tranças das moças pequenas. Dizia-se então que era para venderem para fábricas de bonecas, para serem transformadas em cabeleiras.
Mitos rurais de que toda a gente ouviu falar, mas ninguém viu acontecer. É um bocado como as osgas. Todos dizem que são peçonhentas, que urinam nos olhos das pessoas fazendo com que percam a visão, mas quando se pergunta quantos casos de cegueira provocado por estes répteis conhecem, a resposta é invariavelmente: Nenhum!
Muito cedo percebi que o problema da conflitualidade latente entre ciganos e não ciganos não está na etnia das pessoas nem na cor da pele. Está sim na civilidade de parte a parte; na organização política, social e familiar; na ostracização secular a que foram votados e no eterno faz de conta da integração, com as culpas direitinhas pelo fracasso das acções de inclusão para a parte mais frágil.
Um pouco como o exemplo da osga. Todos lhes temos um certo asco, mal as vemos, munimo-nos de imediato de vassoura ou arma semelhante e, através dela, procuramos expulsar uma certa raiva que não sabemos dominar, um instinto assassino que não sabemos explicar, esquecendo-nos de que as osgas contribuem (e de que maneira!) para a sustentabilidade ecológica do meio-ambiente.
Afinal, são elas as responsáveis para que não sejamos tão picados ou mordidos pelos inconvenientes e implacáveis insectos veraneantes.
Com os ciganos acontece um pouco o mesmo. É claro que se olha com desconfiança de parte a parte. O tempo fez de nós antagonistas.
Curiosamente, conheço pelo menos um caso onde as crianças ciganas salvaram a escola primária de fechar. Um anseio reclamado pelos moradores dessa localidade. Não me recordo de alguma forma de agradecimento aos ciganos salvadores.
Quantos não são os que segregam os ciganos, mas aplaudem as trivelas do Quaresma, mesmo sabendo que este é de raça calé. Normalmente acrescenta-se um comentário jocoso do género – "Cabrão do cigano é mesmo bom. A bola até parece que tem olhinhos!"
Quantos anti-ciganos não dançaram a "Macarena" ao som do duo Azúcar Moreno, duas beldades orgulhosamente ciganas. Até o Benfica já teve um treinador cigano. Lembram-se? Quique Flores, sobrinho de Lola Flores, outra cigana imortal!
Somos assim! Somos a etnia dominante, mas comportamo-nos de forma troglodita, hipócrita e desprezível. Ficamos apenas com o filet mignon que estes nos oferecem. Ao mesmo tempo, rejeitamos via desculpa fácil tudo o que está à volta, exigindo aos outros que se integrem, quando somos nós, maioria dominante, que temos o dever de os incluir.
Estão a ver porque me chamam João Cigano? Sou assim, fervo em pouca água!
Na verdade, cá por dentro, naquilo que me lavra no peito, no sangue que me corre nas veias, na maneira como espreito o mundo, no modo como avalio o meu semelhante, sinto que aqui, no lado esquerdo do meu corpo, neste incessante contador de impulsos, cavalga um coração de nómada, um ser sedento de liberdade, duma liberdade sem algemas nem fronteiras, duma inabalável vontade de viver partindo e de regressar sorrindo.



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