15h37 - quinta, 22/06/2017

O poder e a oposição


Vítor Encarnação
Por detrás de um bom exercício de poder deverá estar sempre uma boa oposição. A oposição é, desde que criteriosa, atenta e assertiva, fundamental para que o poder não cresça desmesuradamente, inche e perca a noção da realidade.
Qualquer poder que não sinta o escrutínio da oposição é um poder que, mais cedo ou mais tarde, de forma mais elaborada ou mais rude, por vertigem ou devaneio, vai falhar relativamente aos compromissos que acordou com os seus concidadãos.
Um poder instituído e dominante tem, por norma, três problemas. O primeiro problema, o mais irracional e o mais difícil de controlar, o seu próprio umbigo; o segundo problema, que lhe dá uma noção de eternização, são as ramificações que vai criando nas estruturas, instituições e organizações, tingindo-as da sua cor; o terceiro problema tem a ver com o desgaste que o tempo e a saturação provocam.
Tendo sido resultado de uma fórmula ganhadora, o poder, por rigidez ou por ausência de ideias, aponta caminhos já batidos e repete até ao fastio discursos e frases feitas.
A oposição tem também, por norma, três problemas. O primeiro problema, o mais irracional e o mais difícil de controlar, o seu próprio umbigo; o segundo problema, que lhe dá uma noção de ilusão, é achar que basta ser gratuitamente contra; o terceiro problema é a desvalorização do processo crítico sistemático e a ideia de que a oposição é apenas um conceito e uma prática que só fazem sentido uns meses antes das eleições.
Tendo sido fruto de uma fórmula que não ganhou, a oposição, por rigidez ou por ausência de ideias, aponta caminhos já batidos e repete até ao fastio discursos e frases feitas.
Há, quase sempre, uma relação complicada entre o poder e a oposição. Não conseguem viver um com o outro, esquecendo-se que não podem de forma alguma, em nome da democracia e da liberdade, viver um sem o outro.
E é por isso que é fundamental que o poder seja competente e que a oposição seja eficiente. Quando a eficiência fiscaliza a competência, desde o dia posterior às últimas eleições até ao dia anterior às novas eleições, isso significa uma mais-valia para a comunidade. Uma oposição que desista dos seus princípios, ou que, por mesquinhez ou vingança, se coloque à margem dos destinos da comunidade que quis dirigir, condena-se a ela própria, não respeita o seu eleitorado e dá ao poder a possibilidade de se tornar autoritário e pretensioso.
A tendência do poder é dizer que tudo o que faz é bem feito, que a verdade é a sua verdade, que os que consegue levar para o seu seio são os melhores e os mais sérios, que em equipa que ganha quase não se mexe. Quando isto acontece, a oposição tem um papel determinante na manutenção do equilíbrio. Mas um papel difícil, porque quem acusa é quem tem o ónus de apresentar provas e a apresentação de provas é uma tarefa longa e aturada, é um trabalho de credibilização junto dos eleitores, é a arte de mostrar claramente a alternativa àquilo que existe e se condena.
Quando bem feita, a oposição é o poder que mais assusta o poder.



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