10h55 - quinta, 25/05/2017

Intolerância e preconceito


Vítor Encarnação
Nas terras mais pequenas, a distância física que separa as pessoas é naturalmente menor. Inversamente proporcional é o conhecimento que as pessoas têm umas das outras. Estes dois dados criam relações pessoais e comunitárias que variam entre a identificação total e a discordância absoluta. Racionalmente, quase ninguém sabe explicar as razões que sustentam uma e outra situação. A história das terras pequenas é muito emocional.
As terras onde toda a gente se conhece são mais dadas aos comportamentos combinados dentro do seio do grupo. Perante uma determinada circunstância, política, cultural, religiosa, os membros dessa agregação tendem a funcionar da mesma forma, primeiro por causa da preservação da identidade e segundo por causa da negação da pretensa identidade dos outros. Frise-se que o segundo, por razões de afirmação de força, é sempre muito mais importante do que o primeiro.
A distinção, ou a suposta distinção, provém de heranças. Heranças partidárias e heranças de posses, no topo. Heranças clubísticas, a seguir. Heranças de intelecto livre, em muito menor número. E imbuídos desta marca e deste estatuto, os membros respeitam e praticam formas alinhadas de ver o mundo. E estas afinidades são aquilo que dá forma ao sentimento de pertença. Bandeiras, ideologias, roupas, símbolos. E entre iguais sentimo-nos mais seguros, nem sempre certos das virtudes, da justiça e do rigor, mas efectivamente mais seguros.
A herança das posses tem vindo a perder o domínio social que costumava ter e a herança do intelecto livre raramente se dá bem com um grupo grande de pessoas a pensarem da mesma maneira. A herança clubística, face à fidelidade dos seus membros fica sempre unida quer na alegria, quer na tristeza.
Sobra e grassa a herança partidária. Assim, os partidos políticos são o exemplo mais acabado dos comportamentos fechados e inflexíveis. É muito raro ver alguém a concordar com um adversário. Elogiá-lo, nem pensar. Mesmo que se lhe dê alguma finíssima razão, há sempre um reparo final que os distancia. Quando tudo corre bem, quando se está na mó de cima, e o tempo tem mós como os moinhos, basta tocar a rebate para que todos se juntem para combater o perigo em nome da causa comum, em nome da grei, em nome da herança.
Mas nas terras pequenas, quando tudo corre mal, piores do que os adversários externos são os adversários internos que receberam a mesma herança e foram criados dentro do mesmo legado. São esses, os que já estiveram do mesmo lado da barricada e furaram o código, que trazem vinganças frias guardadas nos bolsos da memória. E estão armados com duas palavras terríveis: intolerância e preconceito.



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