10h55 - quinta, 02/03/2017

Fumo sem fogo


Vítor Encarnação
Acorda sempre a meio da noite. As duas ou três horas de sono são quanto muito uma pequena trégua na inquietação, um fraco esboço de paz na alma. Apenas um remedeio naquele cansaço tão grande. Não consegue descansar de si própria. Já nem os antidepressivos lhe derrubam a aflição.
Abre os olhos e ali fica fitando o escuro. O do quarto e aquele que traz por dentro. Principalmente o que traz por dentro. Aquele breu que se entranhou em si como um Inverno para sempre.
O silêncio daquela cama faz-lhe doer. Arranha-a toda. Corta-lhe os lábios, o peito e o ventre. Mas nem sempre foi assim. Houve alturas em que os olhos se fechavam docemente por não terem sono e o escuro do quarto era bom. Porque a envolvia toda no seu véu de cetim ou seda ou veludo ou sabe-se lá que outro tecido mais pode parecer a pele de um corpo quando se toca. E se troca.
Havia, por assim, dizer um sol incandescente mostrando o caminho todo, de montante a jusante do desejo. Mas agora esse sol finou-se, aborreceu-se de ser quente e luminoso, e ela já não sabe por onde ir. Sequer se há-de ir.
Antes das lágrimas que já assomam, o corpo todo sabe que já não basta estender uma mão para se apanhar o que está ao alcance dela. Na penumbra da vida há muitas maneiras de se estar só.
Levanta-se a fumar. E bem vistas as coisas pode dizer-se que neste caso há fumo mas não há fogo. Depois do cigarro seguem-se os outros mecanismos de compensação: cremes hidratantes, revitalizantes, anti-rugas, base, sombras, outro cigarro, ansiolíticos, café forte. Claro que os óculos escuros são a suprema defesa para as olheiras e para os olhares agudos, sanguinários dos vizinhos de mesa no café. Há gente que vence e se contenta só por causa das derrotas dos outros.
Outro café, por favor.
Houve um engano qualquer no guião da sua existência. Dedica-se à profissão como uma forma de redenção. Dilui-se no trabalho e faz todas as horas a mais para alinhavar o amor-próprio, para se sentir de pé, vertical. Para ter uma âncora que lhe dê sustento e a agarre à tona da mágoa. Para não se afundar sem regresso.
Às vezes bebe. Escolhe bebidas fortes que a fazem falar muito e no frenesim de cada copo expulsa as palavras que a apertam. E ébria de álcool e quimeras, os nervos e os músculos são cordas tensas que põem o seu corpo a vibrar. Como um violino triste.
Tem amigas com quem fala. Mas cada uma também tem na sua vida outras noites mal dormidas, outros mecanismos de compensação. E o que ela diz já nem é um desabafo. É apenas uma cisma que se conta. Uma conversa técnica sobre o desespero.
Quando regressa a casa e mete a chave na porta, ela sabe que a angústia escorre pelas paredes.



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