18h20 - quinta, 05/01/2017

Encruzilhada


Vítor Encarnação
Quando uma pessoa chega a uma encruzilhada tem duas opções: ou se senta e apodrece, ou endireita a espinha e segue um caminho, ainda que não saiba de antemão onde esse caminho vai dar.
Apodrecer é por norma menos trabalhoso. Respiramos mas estamos mortos. Estamos de pé mas não temos esqueleto. Temos coração mas não temos sangue. Temos olhos mas não vemos.
Mas mais grave do que decidir apodrecer é não saber que se chegou a uma encruzilhada, é não fazer ideia de que ali se escolhem rumos e se tomam opções, é não saber sequer o que é uma encruzilhada. A isto chama-se não saber ver, não saber ouvir, não saber ler.
E a trágica chegada à encruzilhada é, bastantes vezes, resultado de uma atitude irresponsável, ligeira, sobranceira, vaga, egoísta, oca, desligada, dormente, desinteressante. A pessoa centra-se em si e não se apercebe que a realidade é algo de mais abrangente e envolvente. A realidade é a pessoa a interagir com aquilo que a rodeia, é a pessoa a deixar uma marca, a dar um contributo e a receber o que os outros têm de bom para nos dar. E é essa interacção que dá forma e conteúdo ao ser humano.
Sabe-se que é difícil existir, mas mais difícil e desolador é existir sem ânimo e sem vontade, fechado numa concha confortável, cama, mesa e roupa lavada, sem questionar o mundo, a queixar-se do mundo, sem interpretar o que está sob a superfície da vida, sem perceber a importância de ter horizontes, de crescer por dentro, de lutar contra a inércia. Falta amadurecimento, falta compromisso, falta postura, faltam golpes de asa. Tomar decisões em tempos difíceis tornou-se algo de invulgar.
Há quem, por força de circunstâncias difíceis, amadureça mais precocemente. Mas outros, a maioria, só amadurecem através do abanão, do choque, da perda, da terrível encruzilhada.
Só nas encruzilhadas é que os homens e as mulheres concluem que já perderam demasiado tempo a fazer de conta. E para não ser tarde de mais, sentem que têm de rapidamente apanhar os cacos, pegar nas pontas da vida e seguir um caminho.
A vida de uma pessoa está toda interligada. Aquilo que se é nas pequenas coisas, também se é nas grandes coisas. Apenas a dimensão é diferente, mas a essência é a mesma.
E quem não tem sede de viver, morre ressequido, descansado, folgado, mas ainda assim ressequido.
As encruzilhadas são um sítio e um tempo onde abrimos feridas por dentro, mas é assim que crescemos e é assim que somos.
O ano novo pode ser esse sítio e esse tempo. Sem fogo-de-artifício, sem champanhe e sem passas. Apenas introspecção para conseguir sair da encruzilhada e seguir um caminho.



Outros artigos de Vítor Encarnação

COMENTÁRIOS

* O endereço de email não será publicado
07h00 - sexta, 18/08/2017
Adega da Vidigueira
inaugura nova obra
A Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito (ACV) inaugura esta sexta-feira, 18, a obra do seu novo Centro de Análise e Pesagem (CAP), estrutura que já servirá para a recepção de uvas na vindima deste ano.
00h00 - sexta, 18/08/2017
Risco de incêndio elevado no distrito de Beja
O Governo declarou nesta quinta-feira, 17, o estado de calamidade pública em algumas zonas do território nacional, entre as quais diversos concelhos do distrito de Beja.
00h00 - sexta, 18/08/2017
Serviços de saúde nas praias
de Milfontes e Zambujeira
A Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA) tem a funcionar, até final deste mês de Agosto, dois postos de saúde nas praias de Vila Nova de Milfontes e Zambujeira do Mar, ambas no concelho de Odemira.
00h00 - sexta, 18/08/2017
"Noite Branca" nas
piscinas de Aljustrel
Como já é tradição no Verão, as piscinas municipais de Aljustrel recebem nesta noite de sexta-feira, 18, mais uma edição da "Noite Branca", festa organizada pela autarquia local.
07h00 - quinta, 17/08/2017
Seca: Peixes retirados do Monte da Rocha
O Governo decidiu retirar os peixes que se encontram na albufeira do Monte da Rocha (Ourique) e de mais três barragens do Alentejo devido à situação de seca que afecta a região.

Data: 04/08/2017
Edição n.º:
Contactos - Publicidade - Estatuto Editorial