10h44 - quinta, 15/12/2016

Vastidão do deslumbre


Napoleão Mira
Quando em 1911 o arqueólogo americano Hiram Bingham demandou ao Peru em busca de Vilcabamba, o último refúgio inca depois da conquista espanhola, estava longe de pensar que, perto de 100 anos depois, a sua descoberta seria uma das sete maravilhas do mundo moderno.
Viajando a pé e em mulas, este arqueólogo cruzou o Vale do Urubamba, onde dois camponeses locais, Melchior Ortega e Richiardi, lhes falaram de umas ruínas perdidas e escondidas por vegetação no alto da montanha. À pergunta como se chamariam essas ruínas, um deles terá dito... Machu Picchu, ou seja: montanha velha, em quechua, a língua dos incas ainda hoje falada por cerca de sete por cento da população.
Depois dos trabalhos de retirada da vegetação que engolira a cidade, os arqueólogos e cientistas ficaram boquiabertos com o resultado final. Uma cidade inteira construída provavelmente entre os séculos XV e XVI, no auge da expansão do império inca que abarcava mais de 4.000 quilómetros de comprimento, abrangendo o que são os territórios de vários países da região com destaque para o Peru e Bolívia.
A misteriosa e mística cidade de Machu Picchu localiza-se a 130 quilómetros a sudoeste da cidade de Cusco, que foi a capital do império inca, sendo a cidade mais distante do Vale Sagrado, local onde se encontra a grande parte das ruínas deste império que ainda hoje suscita muita curiosidade no meio científico dada a sua extraordinária evolução para um povo que desconhecia a roda (não tinham carros), não tinha conhecimento de animais de grande porte como o cavalo ou o camelo e, mesmo assim, atingiu um grau de aperfeiçoamento social digno do espanto da comunidade científica mundial.
A cidade em si era auto-suficiente, dividindo-se em três sectores. O agrícola com os seus múltiplos terraços onde os locais, ou pagadores de tributo, cultivavam os produtos da sua necessidade. O religioso, onde as suas múltiplas escolas albergavam centenas de estudantes da filosofia religiosa desta curiosa civilização. E ainda o sector do alojamento que chegava a albergar 700 pessoas.
Presume-se que a cidade terá sido abandonada pelos seus habitantes em 1537, menos de 100 anos depois da sua construção, depois do seu monarca ter sido capturado pelos espanhóis. Pressentindo a queda da cidade a qualquer momento, as almas que aqui viviam, terão decidido partir para a selva peruana e abandonado o local, para apenas ser descoberto cerca de 400 anos depois.
Em 1545, os espanhóis terão subido o Vale do Urubamba. No entanto, não existem vestígios de que tenham penetrado na cidadela, que se presume já haver sido engolida pela vegetação.
Os incas desconheciam o dinheiro. A sua moeda era a troca de produtos e serviços. E mesmo o tributo devido aos nobres era pago em trabalho. Existia uma forma avançada de justiça e de organização social, sendo mesmo considerados humanistas e socialistas.
As mulheres tinham um papel de relevância e não era exercida sobre elas qualquer espécie de violência. Coisa rara nas sociedades ditas de vanguarda e espalhadoras da fé cristã.
Os trilhos incas, hoje muito conhecidos por quem gosta de praticar trekking, eram ao tempo deste império percorridos na totalidade dos seus 4.000 quilómetros por estafetas que fariam distâncias que presumo de 10 ou 20 quilómetros entregando ao seguinte mensageiro o documento ou mensagem de modo a que este chegasse em tempo útil ao seu destinatário.
Como não tinham carros ou montadas, todo este percurso era feito a pé, numa rede de caminhos e mensageiros que a nível de organização ombreia com o que de melhor hoje se faz, se salvaguardarmos as devidas distâncias.
Para mim, ter estado aqui, no mesmo local que Hiram Bingham pisou em 1911 e que esta gente de pequena estatura mas de grandeza espiritual construiu, foi mais do que um privilégio, foi uma experiência mística.
Subir ao alto dessa parede/montanha que dá pelo nome Huayanapicchu, ou montanha jovem em quechua, e lá de cima contemplar o que nos rodeia, é atingir um estado religioso de grande intensidade onde deixamos que o nosso pensamento e olhar voem na sua imensidão até atingirmos a vastidão do deslumbre.



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