10h51 - quinta, 08/09/2016

Colocação


Vítor Encarnação
Quando no boletim de candidatura inseriu as preferências de acordo com os códigos das escolas, sentiu-se mais uma vez a pôr a sua vida dentro de uma tômbola que alguém, essa mão invisível que orienta o concurso dos professores, há-de fazer girar a anunciar o seu novo destino numa espécie de lotaria a andar à roda nos finais de Agosto.
Há muito tempo que é assim. São anos e anos às voltas, um ano aqui, outro ali, uma substituição além, outra acolá, já traz o mapa de Portugal tatuado no cérebro.
A plataforma que publica os resultados é uma carta fechada que que se quer abrir mas que custa a abrir. Reúne a família em volta do computador, eles sabem que é um dia marcante para todos. O marido também era professor, deixou de o ser, era impossível ter vida se o fosse. É ele que cuida da casa, é ele a raiz que aguenta essa coisa vaga chamada lar. O filho mais velho fica com ele. O mais novo irá com ela, tem de o levar consigo, não pode lá deixar tudo, é menos um por quem chorar.
Às vezes já não sabe se preferia ficar colocada ou não. Mas ficou, vai andar quatrocentos quilómetros para ensinar Geografia, cinco horas de carro, de portagens, de combustível, de medo do que vai encontrar. Vai à internet, procura informações sobre a escola, sobre a terra, lembra-se de uma colega que já lá deu aulas, telefona-lhe, tem coisas boas e más, as casas são caras, alguns colegas são maravilhosos, outros são arrogantes, a direcção tem dias, a creche não é má, há turmas difíceis. Isso já ela sabe tudo, já apanhou de tudo, alegrias imensas, dores imensas.
Vai novamente à plataforma aceitar a colocação, confirma o dia em que se tem de apresentar, telefona para a creche para ver se há vaga, começa a fazer as malas, chora quando ninguém vê. Só voltará daqui a um mês, é demasiado longe.
Aluga uma casa com dois quartos que tem sido guarida para outros professores contratados, faz-lhe confusão não haver fotografias, o frigorífico vazio, as paredes despidas, a estranheza da primeira noite, tudo tão frio outra vez.
Desfaz as malas, refaz planificações, aprende outros nomes, aguenta outros feitios, tenta perceber outra pronúncia. Vai ser directora de turma, não conhece o meio, nem os alunos, nem os pais, socorre-se de um discurso pedagógico, procura sorrisos na sala de professores, lá haverá certamente outros como ela.
Tenta não desesperar. Só já faltam seis meses para começar o outro concurso. Pode ser que fique colocada um bocadinho mais perto de casa.



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