11h59 - quinta, 23/06/2016

Palavras perdidas


Vítor Encarnação
Perdeu palavras pelo caminho. Dantes sabia mais, tinha aliás sempre as mãos e as bochechas cheias de palavras. Dessas que se vestem de neblina e de opacidade e os dicionários trazem em segundo ou terceiro ou último lugar para definir os mesmos sentidos, mas que por virem nesses lugares secundários são menos geométricas, menos gramaticais e mais etéreas, mais libertinas.
Tinha a boca sempre cheia de palavras que ninguém queria dizer. E essas que ninguém quer dizer são as que ficam para lá das reticências, dos pontos de interrogação, dos etc. e dos pontos finais. E ele, com a sua língua afiada nos vocábulos cremosos, ia além da moral e rasgava as pontuações que são as causadoras de todos os silêncios cobardes.
Houve um tempo em que nada ficava por exclamar, nenhuma raiva, nenhuma ternura morria com falta de ar, sabia desatar todos os nós onde as gargantas se enforcam, aquecia o frio do estômago, descobria sempre um significado para todas as coisas. Tudo tinha voz, um clamor, uma razão, uma linguagem, um troar, uma caixa de sons feitos pelos dentes. Nenhum sentimento ficava por mostrar, nenhum sentido ficava invertebrado, nenhum brado ficava por dar, nenhuma paixão por gritar, nenhum ai ficava no peito. As palavras eram tantas que pareciam bandos de estorninhos pondo oralidade nos céus.
Tinha os bolsos sempre cheios de palavras estranhas. Eram pedaços de vidas que se desprendiam das bocas, vocábulos caídos de um poema dolente, sons escorraçados, letras trucidadas pelo vazio de uma relação entre um homem e uma mulher, termos vadios, ideias sem eira nem beira. E como quem tira um pássaro de uma gaiola ele tirava as desusadas palavras dos bolsos e punha-as a cantar ao sol.
Mas agora já não inventa mundos de algodão com pés de cereja, já não escreve poemas meio redondos, meio erectos. Agora só já faz ditados. O alfabeto é um bocado de pão às secas, uma receita de cozinha que ele segue à risca para lhe alimentar a existência e para o manter vivo e velho.
Perdeu as palavras pelo caminho como quem perde o cabelo. Uma a uma, um a um. Sem ele dar por isso caem a seus pés. Um dia e outro, uma noite e outra. Uma palavra que se esquece, outra que lhe queima os lábios, outra enforcada na garganta, outra morta, assassinada, apodrecendo dentes e gengivas, outra presa na malha do tempo. Quando deita as mãos à cabeça já não tem lá nada. Nem cabelo nem palavras. Encontra apenas um silêncio calvo a cobrir-lhe a memória. Os papéis que escreveu são túmulos de cinza, morcegos mortos colados à folha.



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