14h46 - sexta, 18/12/2015

PANJIM – Goa: Um retrato com alma portuguesa


Napoleão Mira
Contratámos um pequeno carro com motorista, Lucas de seu nome, para nos levar a Panjim e a Goa Velha.
Esta é uma modalidade muito acessível por aqui. Tanto, que depois de regateado o preço, a coisa deu-se por cerca de trinta euros com tudo o que é inerente ao automóvel incluído.
Serpenteámos as estradas que nos conduzem à capital a uma velocidade pouco mais que exasperante, como é apanágio por toda a Índia. De Arambol a Panjim são apenas 40 kms, mas para os ultrapassarmos demorámos cerca de hora e meia, se bem que Goa Velha ainda dista 10 kms da capital. De qualquer forma, uma eternidade!
Nessa Goa antiga, demorámos o olhar em prolongada visita. Logo ali, na primeira igreja (S. Francisco de Assis,) um solícito guia goês, sem qualquer interesse monetário (diga-se de passagem!), fez questão de nos prestar uma série de preciosas informações acerca do local. Fê-lo apenas pelo prazer de exercitar o seu excelente português e por se notar nutrir por nós forte admiração.
Visitámos depois todo o complexo templário com a minúcia que o tempo de que dispúnhamos permitia. As igrejas estão relativamente bem cuidadas, apesar de desprovidas da quase totalidade das suas riquezas originais. No entanto, altares, retábulos ou estátuas de qualidade artística admirável ainda por aqui podem ser vistos, nomeadamente o sarcófago onde estão depositados os restos mortais de S. Francisco Xavier.
O espaço exterior está bem cuidado. O verde da vegetação aparada contrasta com o branco imaculado da cal das paredes das igrejas. Respira-se um ar sereno neste pedaço da Índia com cheiro a Portugal.
Cirandando pelas ruas de Panjim fomos dar ao Bairro das Fontainhas. Aqui deve ser o último bastião da memória urbana goesa com orgulhosas referências a um passado relativamente recente.
Nas paredes das casas azulejos genuinamente portugueses anunciam o nome de família do seu proprietário. Pereira, Nunes, Fernandes, Santos de entre muitos! Noutras, frases religiosas pedindo protecção para o lar e família.
Não sei se pelo nome Fontainhas, se pelo estilo arquitectónico das casas, se apenas pelo tipo de telha, pareceu-me que a influência predominante teria que ver com a cidade do Porto e seus arredores. Mas pode ser só cisma minha!
Através de um amigo, tinha memorizado o nome de um restaurante por ele recomendado. "Viva Panjim", assim chamado. Localizado numa viela deste bairro, parece um daqueles locais onde se mergulha sem olhar ao menu.
Artigos de jornal, placas comemorativas, diplomas gastronómicos, fotos com ilustres estrangeiros e locais expostos nas paredes atestavam a credibilidade gastronómica e a reputação da sua cozinheira.
A casa é antiga e ostenta nome de família portuguesa. A sua proprietária responde por Linda de Souza e, se alguma dúvida subsistisse, no cardápio constavam pratos como caldinho de peixe ou mesmo cabidela.
Optámos por um prato goês chamado "pork vinedalo", que depois de investigado, verificámos que o nome derivava da tão nossa vinha de alhos, só que desta feita com o inevitável caril indiano à mistura. Uma agradável surpresa!
Almoçados, partimos à descoberta do resto da cidade. Visitámos ainda a igreja de Panjim, uma construção ao estilo do Bom Jesus em Braga, embora mais modesta, até fazer horas para uma excursão que planeáramos fazer. Uma pequena viagem de barco, assim numa espécie de cacilheiro para assistir ao pôr-do-sol.
Quando o barco começou a encher, verificámos que este era um passeio especialmente do agrado dos indianos, já que estes eram a quase totalidade dos passageiros.
Enquanto se aprestava para largar amarras, um animador de serviço ia chamando ao palco e à vez os passeantes por género. Primeiro as crianças, depois os casais, de seguida os rapazes e por fim as raparigas. Entremeando assim, as danças goesas que faziam parte do cardápio e que tinham uma espécie de dançarinos pouco esforçados no que diz respeito às coreografias.
Já a noite tinha caído quando o speaker, anunciou a última dança goesa. Esta, dizia ele, de inspiração portuguesa, já que não se apagam assim, do pé para a mão, 500 anos de comum convivência.
Os dançarinas (se assim lhe pudermos chamar!) vestiam uns trajes reconhecidamente portugueses, parecidos aos dos ranchos folclóricos das beiras, com um cheirinho a minhotas, e eles com um toque de algarvios. Dançaram (se é que assim o podemos considerar!) uma marcha de São João, cantada por um indiano, presumo que goês, que tinha sotaque do Porto.
Já no caminho de regresso a Arambol, rememorei o dia passado em Panjim e, pensando no que acabara de assistir, fiquei convencido de que as memórias de um Portugal longínquo permanecem vivas graças ao orgulho nas tradições com que os goeses de Panjim fazem questão de se diferenciar dos restantes indianos, que, verdade seja dita, nem sequer sabem onde fica.



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