15h23 - quinta, 19/11/2015

A fórmula do ódio


Napoleão Mira
Tinha em mente escrever uma crónica de outro teor. Mas, ao tentar alinhavar os pensamentos de modo a que me escorressem pelas pontas dos dedos e se traduzissem em palavras à medida que os teclava, estes, voavam-se-me para as ruas de Paris e para a chacina aí levada a cabo no passado fim-de-semana.
Dou comigo a pensar que a pretérita sexta-feira/treze, mais do que um profético dia de azar, foi o dia em que a liberdade dos parisienses, dos franceses e dos europeus, se viu violentada. Se viu cerceada.
A partir de agora, tudo será diferente!
A partir de agora, passaremos a olhar o nosso semelhante, não como um possível protector, mas sim como uma potencial ameaça à nossa integridade. Passaremos a viver no império do medo. E isso faz toda a diferença!
Bem que gostaria de fazer um exercício mental que me conduzisse a uma explicação plausível, lógica, que me permitisse entender as motivações que levaram aqueles jovens a terminar com as suas próprias vidas, levando consigo naquele acto hediondo, as vidas e os sonhos de largas dezenas de inocentes cidadãos.
Da amálgama de pensamentos retorcidos que me invade, apenas consigo visualizar com nitidez a palavra ÓDIO, como forma de justificar o injustificável.
Ódio puro e duro. Alimentado à custa de décadas de segregação, duma política irracional e exclusiva que empurra para os subúrbios das grandes cidades, como quem varre para debaixo do tapete, uma franja da sociedade sem rumo nem futuro, enquanto os políticos vão assobiando para o lado.
Aí, nesse terreno pantanoso mas fértil, encontram nas apetecíveis e certeiras palavras de certos mercadores de sonhos, o combustível necessário para alimentar o crescente ódio que germina dentro de si.
Embrulhados no verbo do alcorão, campânula onde se acoita esta personalidade colectiva que os acolhe, são-lhes incutidos títulos de heroicidade e recompensas celestiais que os doutrinados aceitam como prémio à sua devoção.
Daí a meterem-lhes um cinto de explosivos à cintura e uma Kalashnikov nas mãos vai apenas um pequeno passo.
Deste caldo de insatisfação. Desta mistela incontrolável e explosiva. Desta ausência de valores racionais, emerge um rancor desmedido cuja única saída resulta na barbárie a que assistimos.
De relembrar que as ordens para esta chacina podem ter vindo da Síria, mas os executantes vagueiam entre nós.



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