11h08 - quinta, 06/08/2015

O bibliotecário


Napoleão Mira
Sempre que a via chegar ao largo da igreja matriz regalavam-se-me os olhos.
Acompanhava-lhe com o olhar a vagarosa descida desde a Rua de Beja até se imobilizar junto à frondosa sombra do templo maior de Entradas.
Era dia de quinta-feira. Altura em que a carrinha Citroen HY, convertida em biblioteca itinerante, visitava a vila.
Estávamos no mês de Agosto do ano sessenta do século passado. A vida por estas bandas passava tão vagarosa, quanto a calmaria dos dias de estio.
Lá de dentro, do peculiar veículo, saiu o bibliotecário que saudou efusivamente a miudagem que o esperava, afagando os cabelos dos que estavam na sua passagem para a venda do Ti Mariano Chaves, que se situava ali a dois passos, quase à esquina da Rua de Santa Bárbara.
– Vão fazendo aí uma fila que eu já volto. Vou só ali à do Ti Mariano matar a sede e não tardo nada. – Ordenou o jovem bibliotecário que respondia pelo nome de Hélder.
– Boa tarde Sr. Hélder! Então, vai o costume? – Saudou perguntando o taberneiro enquanto já se agachava para ir buscar à caixa de madeira tapada com uma serapilheira molhada a desejada cerveja.
– Qual será o dia em que eu vou beber uma cerveja fresca em Entradas? – Questionou algo desiludido o jovem barbudo com sotaque lisboeta.
– Daqui a dois ou três anos se deus quiser já havemos de ter electricidade. Os postes já estão a ser prantados no terreno e logo, logo, estão na vila! Diz-se por aí que em breve a corrente eléctrica será inaugurada.
– Se ainda estiver por cá, faço questão de vir estrear esse frigorifico. – Gracejou Hélder já de saída, deixando em cima do balcão os 3$50 para pagar aquela beberagem quase morna.
De regresso à carrinha, correu a porta de acesso àquele mundo da fantasia ao mesmo tempo que dava autorização à rapaziada para entrarem.
Os olhos reluziam-se-me só de ver tanta lombada. Cheguei mesmo a questionar os meus botões, inquirindo-os se algum dia chegaria a ler aqueles livros todos?
Recomendando pouco barulho, o funcionário da biblioteca ambulante começou a fazer as trocas. Apontava os recebidos, anotava os entregues, sugeria as novidades, recomendava os que lhe pareciam mais adequados.
Eu, que já tinha lido toda a coleção de Sandokans do Emílio Salgari, deixei-me ficar para o fim. Queria perguntar ao Sr. Hélder que livros me aconselhava doravante a ler. Achava que já estava pronto para dar o salto para obras de maior vulto.
– Podes levar agora, Os Fidalgos da Casa Mourisca e As Pupilas do Senhor Reitor, do Júlio Dinis – Recomendou o simpático bibliotecário, denotando um claro interesse em me ajudar no meu percurso como leitor. Quem sabe, seguindo os seus conselhos, um dia, poderia chegar a ler Victor Hugo ou mesmo Balzac.
Por mim, gostava de ficar por ali até que pela tardinha abalasse. Gostava de percorrer as prateleiras repletas de livros, ler as lombadas, meter-lhe o nariz nas entranhas, fixar nomes de obras e de autores, enquanto o Sr. Hélder, depois de cumprido o ritual das recolhas e entregas, se entretinha muito compenetrado a escrevinhar num caderno até que se cumprisse o horário estipulado.
Foi num desses momentos em que só eu e ele povoávamos aquele espaço de magia que, meio afogueado, se me dirigiu solicitando: – Viriato, toma-me aqui conta do estaminé enquanto vou ali fazer uma necessidade. – Pediu algo atrapalhado o meu "mercador de sonhos" particular.
Como o caderno onde escrevia estava aberto, não resisti à curiosidade de lhe deitar uma olhadela.
Não percebia aquela gatafunhagem. Procurei unir as palavras utilizando o dedo indicador. Demorei mesmo algum tempo a agrupar uma ou outra frase. Todavia, depois de algum esforço consegui juntar umas quantas onde se lia: "Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver?"
Estava tão absorto no processo de descodificação daquela linguagem, que nem dei pela entrada do Sr. Hélder.
Fiquei lívido quando o senti atrás de mim a ler em voz alta aquilo que eu mentalmente soletrava.
– Então o que achas da minha escrita, seu intruso de meia-tigela. – Questionou gracejando o bibliotecário, enquanto me despenteava o cabelo desapartando-me a marrafa.
– Não sei Sr. Hélder. Não percebo nada do que o senhor escreve. Ando aqui às voltas e não lhe consigo encontrar significado. – Respondi, balbuciando sem convicção.
– Eu, às vezes, também não sei o que escrevo. Saem-me estas coisas e pronto! As frases que acabaste de ler são o início de um conto em que ando a matutar. Até agora não tinha título. Mas tu, na tua infinita inocência acabaste de lho dar. Está decidido! Vai chamar-se: Os Passos Em Volta e, se um dia o chegares a ler, saberás que foste tu que o apadrinhaste. - Sentenciou na sua voz grave o jovem barbudo.
Decorrido este epifânico episódio entregou-me os livros recomendados sugerindo-me que, com a sua leitura, mergulhasse nas personagens. Que saltasse para dentro do livro e que convivesse com elas. Que assim, também entraria na intimidade de quem as criara. Desse modo, penetraria num mundo onde apenas os privilegiados podem aceder. Que de tanto ler, talvez um dia também a mim me surgisse a vontade de escrever e, se assim procedesse, também eu viesse a criar o meu próprio universo e quem sabe, ele, um dia, viesse a irromper na minha privacidade através da leitura desses hipotéticos escritos.
Já eu ia de saída com o coração em galope desenfreado por via da lição recebida, quando me chamou de volta.
Foi assim uma espécie de momento solene. Um certo ritual de passagem. Nisto, olhou-me profundamente nos olhos e, se com uma mão sobre o meu ombro me armava num suposto cavaleiro das letras, com a outra apertava a minha com firmeza, dizendo: – Viriato, a partir de agora não me voltas a chamar de Sr. Hélder. Para ti, sou apenas... Herberto!



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